sexta-feira, 6 de outubro de 2017


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Belo instrumento no peito de tanta nobreza
E eis que estica sua seta o guerreiro
Com olhos de coragem e espanto
Lança-se no mundo ao lado de quem o ama

Ela, em perfeita simetria ancestral, faria o mesmo.
Tornaria-o possível
Travaria duras batalhas em busca de seus olhos

O medo/coragem atravessa sua noite
Mas aquele tambor no peito seduziu com graça
Uma moça amarela que dança

Despida no meio da noite
Ela dança sem saber que é alvo
Ela apenas dança e se empodera
Fêmea que é
E se transforma, no desequilíbrio fluído do ato,
No lar que o guerreiro quer
(lar andarilho....)

Sua seta indicou o rumo
A flecha penetrou o músculo
E assim surgiu uma nova canção no mundo.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Nós

Os nossos olhos se cruzaram
Como flechas dos centauros que habitam em nós
E flertam o céu.

Carrega consigo um par de lábios vermelhos
Que harmoniza perfeitamente com seus dentes
Imagem predileta
Plano detalhe
Talhado no peito

Seu peito
Virou minha cama
E eu
Sua dama

Sempre soubemos nos amar
E parece aterrorizante
O que ainda há a aprender
Sobre nós

Desatando os nós
Como aquele conto dos esquimós
Carneando esqueletos
Lagrimas que nutrem
Tambor no peito
Canção da vida.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Entre Ser

 Criação - Homem e Mulher - Gilvan Samico


Ela desaprendeu a ser um
Virou dois
Virou tudo
Integrou-se
Entregou-se
Entre (go!) ser

Caminha encostada na sombra do sentimento-outro
Protege-se um pouco da claridade intensa desse encontro-sol

Desde que o conheceu, seus olhos se voltam a este projeto insólito de amar
Ela caminha com esta força que colore seus dias
Ela dá passos com as mãos no bolso onde guarda seus olhos
.
Sem perceber melou suas calças do mel que exala a ternura daquele olhar.

Ela o reconheceu
Não de primeira
Mas no instante em que ele - leal - hesitou.
Ela o reconheceu pela lealdade do guerreiro com armadura na face -
aquela imagem mítica que lhe veio no momento em que se encaravam fundo, penetrados.

O tempo com ele é mítico
Impossível de enjaular nos ponteiros
que nos apontam os afazeres ordinários

O mundo com ele é outro
Meio aldeia de índio
Meio abóbodas de sacristias medievais
Meio microcosmo de divisões celulares primitivas
Meio a promessa de um futuro-filho-fruto bem vindo

Desde que se conheceram pertenceram um ao outro
E essa tomada de ser causava um pouco de vertigem

Tentaram entender, sentiram
Tentaram romper, se uniram
Tentaram esconder, descortinam.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

RECEITA PRA RINITE


SUOR E SÊMEN
SALIVA E SEDE

domingo, 2 de agosto de 2015

De um tal Lucas


Levo comigo o cheiro do meu perfume misturado à tua pele, aroma preferido.
Levo comigo um sorriso largo todas as vezes que me lembrar dos seus lábios.
Levo comigo a dialética de encontros inesperados que misteriosamente tecia o laço.

Levo duas entradas para o teatro e um olhar vermelho de Miró.
Levo as palavras inspiradas cravadas no peito.
O sabor da aventura de desbravar pelo desconhecido que é este teu reino.

Carrego um pôr do sol que te iluminava laranja e me lançava no abismo.
Aquele banho de água doce em que nos misturamos à pedra e fomos um só.
Levo comigo pássaros libertados do coração de uma santa.

"Não levo nenhuma única gota de veneno."
Levarei aquela casa leve, com uma cama pequena, perfeita pra nós dois.
Um ombro direito onde repousava meus sonhos.
Um enlace que me levava à eternidade.
Os discos, livros e poetas ressonantes...

"E é um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi."

(Inspirado no conto "A mulher que diz tchau." de Eduardo Galeano.)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

As vezes me fito abismada:
Essa que sou eu e que toma decisões
Essa que se desmancha e anda pra frente sem saber como
Essa que ama e investiga seu destino

As vezes olho o que é próximo como se fosse uma porta entreaberta
Sem vasculhar fundo esse objeto de minha de minha superficial autoridade

Entretida nos devaneios do ego
Vasculhando pouco dos outros
Pouco de fora
Egoísta,
Entretida nas profundezas de mim
Vagueio aqui
Só.
Sem olhar ao redor

Caminhando...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Álvaro de Campos em sua histeria divina!!!

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiquês humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultâneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,

Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora,
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora dele há só ele, e tudo para ele é pouco.

Cada alma é uma escada pra Deus,
Cada alma é um corredor-universo para Deus,
(...)
Toda Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!

(...)

Ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
(...)

Grande coração pulsando no peito nú dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu prório corpo de terras e rochas, teu corpo submisso
À tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

(...)
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada transpassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com minha pele e meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre.

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito estoura
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por  uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo, para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

(...)

Dentro de mim estão presos a atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios que se precipitam.

A chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar minha alma.
Ruge, estoura, vence, quebra, estrondeia, sacode
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,

Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo meu corpo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

Uma vontade física de comer o universo
Toma às vezes o lugar do meu pensamento...
Uma fúria desmedida
A conquistar a posse como que observadora
Dos céus e das estrelas
Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime.