quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

As vezes me fito abismada:
Essa que sou eu e que toma decisões
Essa que se desmancha e anda pra frente sem saber como
Essa que ama e investiga seu destino

As vezes olho o que é próximo como se fosse uma porta entreaberta
Sem vasculhar fundo esse objeto de minha de minha superficial autoridade

Entretida nos devaneios do ego
Vasculhando pouco dos outros
Pouco de fora
Egoísta,
Entretida nas profundezas de mim
Vagueio aqui
Só.
Sem olhar ao redor

Caminhando...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Álvaro de Campos em sua histeria divina!!!

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiquês humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultâneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,

Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora,
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora dele há só ele, e tudo para ele é pouco.

Cada alma é uma escada pra Deus,
Cada alma é um corredor-universo para Deus,
(...)
Toda Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!

(...)

Ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
(...)

Grande coração pulsando no peito nú dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu prório corpo de terras e rochas, teu corpo submisso
À tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

(...)
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada transpassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com minha pele e meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre.

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito estoura
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por  uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo, para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

(...)

Dentro de mim estão presos a atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios que se precipitam.

A chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar minha alma.
Ruge, estoura, vence, quebra, estrondeia, sacode
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,

Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo meu corpo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

Uma vontade física de comer o universo
Toma às vezes o lugar do meu pensamento...
Uma fúria desmedida
A conquistar a posse como que observadora
Dos céus e das estrelas
Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime.

sábado, 9 de agosto de 2014



Pintou as unhas para se masturbar
Sentou na saia para se roçar
Abriu as pernas e seu feminino exalou pelo ar!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Paraty

Paraty



Ponto de partida
Passagem de ida
Começo da vida
Nenhuma ferida

Para ti essa cidade
Pára aqui nessa cidade
De muita idade
Abriga Trindade
E uma infinidade de beleza

Encontro das águas
Encontro-me na natureza
Terra eterna regada
Brota fruta do nada
E eu contemplo calada
Colada nas águas
A escorrer com o Rio
E me derramar no mar

Terra do Sono
Praia sem dono
E eu em abandono
Fazendo plano de viajar

Mas Paraty deve chamar Páraqui
Para ti esta terra, ri
Vi
Voltei
Fiquei
Não sei
Amei...

(2006)

domingo, 6 de julho de 2014

HORIZONTE FECUNDO

Remeto-me neste instante àquelas águas correntes dos morros de curvas verdes.
Meu ali.
Meu logo ali que alcanço agora e se transforma na coisa mais bela que posso oferecer de mim.
Meus passos seguem em frente dizendo agora como e por onde devo prosseguir.
O horizonte me acalma como um pai.
As cores deste fim de dia me preenchem.
Agradeço ao deus do mato e à deusa da água doce - eternos amigos

Deixo-me flutuar ao relento por uns instantes, aqueles que circundam o azul anil
Meu presente se torna cada vez mais enfático e as horas engordam
Neste exclusivo reconhecimento de existir

Inauguro o meu destino
Brindando com vinho tinto
Meu primeiro passo pra vida oriunda do horizonte fecundo

Meus olhos são só compreensão e alegria
meus olhos, neste instante, lêem o fluxo
Estou aqui
Correndo, correndo, escorregando nessas horas macias

A poesia me infecta e eu só posso sorrir e me abrir pra ela - irmã de todas as horas
Que saudade de estar aqui, reverberando meu agora
Por ora, é só.

domingo, 29 de setembro de 2013

O MOMENTO HOJE



Busco o instante doce
O momento hoje
O que em mim é inesperado.

Sinto a brisa gelada
Reparo o som da gargalhada
O amargo do café

Vivendo de fé e agora
Não vejo passar a hora
Agora que hora não há

É como se fora do tempo
O dia revelasse a aurora
Lá fora meu dentro
Esse lugar

Sou esse cão que ladra constante
Aquele galo distante
Minha memória do antes
Toda saudade que há

Sou os olhos atentos e noturnos do gato que na frente está
A esperança da gente de no céu chegar

Em cada estrada que passar
Estará lá tudo de mim
Tudo que devo encontrar
Me ensinando que a vida é assim
Esse eterno desvendar
Se eu quiser nunca terá fim
Se eu quiser pode tudo acabar

sábado, 14 de setembro de 2013

ZILDA




Era uma vez uma moça simples, que aos 9 anos perdeu sua referência de pai. A mais velha de 4 irmãos, os restantes do sexo oposto.

Era uma vez uma menina que foi à escola aos 11 anos e aos 15 se despediu de sua mãe.

Ela se apaixonaria um ano depois pela primeira vez. 

Eram beijos furtivos por detrás da roseira branca. 

Ele, um moreno cheiroso que beijava bem. 
Dez anos mais que ela. 
Um amor de verão e inverno, um amor de cartas de amor, um amor, único amor.

E ela não era a única do danado pé de valsa, fogo livre, passarinho de galho em galho que ora pousava em seu canteiro fazendo juras de amor.

Ela se casaria com ele. Até hoje, 70 anos depois, ela se casaria com ele. Fugiria com ele se não fosse errado, ou se não fosse tão correta. 

Cinco anos durou a maior aventura de sua vida, entre cartas e beijos escondidos de um homem passarinho.

E ela se permitiu sonhar e se permitiria a vida inteira esse vôo.

Quando ele foi embora ela disse que não seria mais de ninguém. Revoltada com os desejos do tempo que nada tinham a ver com seus desejos íntimos, trancou-se por três anos. Até um novo moreno cortejá-la. O sobrinho do passarinho, três anos menos.

E ela não quis mais saber de esperar. Foi um ano de namoro e um de noivado e lá estava ela atrelando seu destino a alguém, cuja união semearia duas vidas: um homem, meu pai, e uma mulher, minha tia. 

Foram 23 anos de uma vida tranquila  na recém inaugurada Brasília. Chegaram na década de 70. Pode-se dizer – Candangos – aqueles que acreditaram em Brasília quando Brasília era barro.


E se foram os anos e Brasília é asfalto e ela... Ela é uma menina de quase 80 anos que voa todos os dias detrás de suas roseiras imaginarias...