domingo, 8 de abril de 2012

Valente


Uma vez nos disseram: olha, este caminho está muito ruim, o carro não agüenta, é ao lado da cordilheira, é mais bonito, lógico, mas ali, só 4X4; é mais seguro pegar esta estrada que você anda só cem quilômetros a mais, mas a estrada é muito boa, um tapete! Um pampa para contemplar e a segurança, né?

Olhamos-nos entusiasmados e cúmplices porque sabíamos que íamos pelo caminho mais bonito, não importavam os riscos. Vinho, vales, outono, seca, um sonho árido e gelado. Estávamos já perto do Chile. 150 quilometros percorridos em seis horas, um ciclista nos ultrapassou!




Mas o Valente seguiu viagem, quase sem combustível, com os olhos fracos de quem trepidou durante horas, seguimos rumo às montanhas desertas de Neuquén, rumo ao crepúsculo sinuoso e às viagens sem fim.

Entre Nietzsche e Reich


...O ser humano é uma corda estendida entre o verme e o super homem...
                                                                                        Nietzsche, em Assim falou Zaratustra



Tens medo de altos vôos, medo da altura e da profundidade. Tu devoras a tua felicidade. Nunca fostes capaz de gozá-la com plenitude. É por isso que a devoras avidamente, sem sequer assumir a responsabilidade de a assegurares. Nunca foi permitido aprender a cuidar das tuas alegrias, a alimentar a felicidade como o jardineiro o faz com tuas flores, como o homem da terra as suas colheitas. É fácil devorar a felicidade na tua companhia, mas é difícil protegê-la.
Entras em pânico a cada vez que sentes os impulsos primordiais do amor e da dádiva. É por isso que tens medo de dar. A tua permanente avidez só tem um significado: te sentes vazio, esfomeado, infeliz, ignorante, temendo a sabedoria. É por isso que foges da verdade, ela poderia fazer-te amar.
Tens um medo mortal da tua própria profundidade, por isso nem sequer a sentes. Temes a queda e a perda da tua individualidade, quando só terias a ganhar com o abandono.
Viverás bem e em paz quando a vida significar para ti mais do que a segurança; o amor mais do que o dinheiro; a tua liberdade mais do que as linhas diretivas do governo que eleges; quando a tua forma de pensar estiver de acordo com tua forma de sentir; quando for possível reconhecer os teus dotes a tempo e reconhecer a tempo o teu declínio, a tua velhice.


Plantei a semente de palavras sagradas neste mundo.

(Fragmentos do texto "Escuta Zé Ninguém", de Wilhem Reich 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vênus em Sagitário


Remexendo meus papéis e minha memória, eis que encontro uma folha manchada e escrita à lápis, oriunda de um tempo de mim que nem sei...

 

Nasci para sentir saudade
Está tudo guardado aqui e nada pesa
De sol a sol pressinto a aurora de meus sonhos
Florescerem na vida em canções e desapegos
Solto o instante
Deixo-o percorrer nas superfícies e nos adentros e no que em mim não me pertence
E recordo que nada me pertence

Pertenço eu a tudo que vibra


terça-feira, 20 de março de 2012

POTENCIAL



E ele disse:

..e Deus criou o homem...errar é divino!


OUTRO HOMEM:  e o homem criou deus.. errar é humano

mesmo.

OUTRO HOMEM e a terra criou o homem, errar é

teráqueo??

ELE: e o cosmo criou a terra...errar é cósmico???

O PRIMEIRO: Não, a Terra não é um erro. ;)

ELE:  comparado ao q?

O PRIMEIRO: Comparado ao erro de criar um deus.

ELE: aí é uma outra coisa, uns acreditam outros não, todos

 morrem menos ele...

O PRIMEIRO: sonhos são como deuses, quando não se

 acredita neles, deixam de existir".

ELE: funciona na música •

 O PRIMEIRO:Na prática só não funciona porque as crianças

 aprendem a repetir a música urbana.

ELE: não vou entrar nessa discursão com vossa

 majestade...se isso é ou não é real...





OUTRO HOMEM: ‎"...foi deus mesmo que, terminado o seu

 trabalho e revestida a forma de serpente, pôs-se ao pé da

 ciência: dessa forma repousou do cansaço de ser deus.

 Fizera muito bem… O diabo não é mais que a ociosidade de

 deus cada sete dias…". Nietzsche, o cara que matava

 deuses com a inteligência.

OUTRO HOMEM se já existe uma palavra para designar

 alguma coisa, simbolicamente, então a coisa já existe... não

 existe palavra para o que não existe... agora, saber o que é,

 é que são outros 500... é muita gastação de palavra...

ELE:  só lembrando uma coisa velha que eu li por aí:

No muro de berlim estava pixado: Deus está morto!

ass. Nietzsche

dias depois apareceu uma pixação abaixo dizendo:

Nietzsche está morto!

ass. Deus
.
O TERCEIRO: acho muito mais poderoso e digno Nietzsche

 matar deus que deus matar Nietzsche...


O PRIMEIRO: Vai Planeta, ahahahah


ELE:  acho q os dois vivem ainda hj em plena

 harmonia....rsrsrsr


O PRIMEIRO: Mas mas mas... ateus precisam?

ELE: riquezas são diferenças, acho q todos precisam de

 conteúdo pra tudo...a dor, o medo da morte e outros

 continuam aí com ou sem Deus. as pessoas precisam de se

 apegar a alguma coisa, mesmo que seja ao desapego...ou

 não

.
O PRIMEIRO: No meu caso específico, o apego estava dando

 dor nas costas! Agora não, me sinto mais confiante em mim

 mesmo, com mais amor próprio, a vida faz mais sentido.


ELE: eu confesso que sinto necessidade do q posso chamar

 de mitologia pra mim, muitas coisas e lugares eu não

alcanço e sou mais dq sei de mim, que é uma dose

mínima...acredito na possibilidade do mistério e espero de

 coração que estejamos todos enganados e do outro lado

 seja apenas melhor e a jornada continua...


ELA: Nietzsche não matou deus, expandiu suas

 possibilidades, além dos muros da instituição DEUS, trouxe-o

 para terra, fez a terra acertar e divinizou todo bom fruto

 preparado por ela. Niezsche fez Deus dar cambalhotas e

 lembrou-nos que rir nos redime de qualquer erro. Errar traz

 o novo. O homem é criador. Falo do fálico poder e

 penetração e afirmação. Julgar é que atrapalha muito, mas


 estamos aprendendo, né?


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Último presente


Te ofertei as melhores horas da minha idade
O meu corpo maduro e pronto para o gozo infinito
Te abri minhas portas
pernas
te deixei transitar pela gruta escura
e pela casa clara
criei frases de efeito para materializar a intensidade da proposta bruta que o peito impunha sem pestanejar
Abri meus braços e fui só entrega

Os segundos de quentura no peito
A poesia dos olhos mudos extasiados de espanto e beleza
O colo mais macio
O entrelaçar mais simbiótico

E me parece justiça divina perceber que o que te ofertava
Habita em mim independente de ti
A beleza pertence aos olhos de quem a nutre
Por isso eu pinto você bonito 
E me despeço do que não demos tempo do tempo invadir



quinta-feira, 17 de novembro de 2011

MULTIPLICIDADE DE PERSONAS, EXPERIMENTAÇÃO ALEATÓRIA DE PAPÉIS



Ela e seus muitos pensamentos, uma casa harmonicamente desordenada e inspirações latentes...
A chuva cai sonoramente do lado de fora. A natureza lentamente orquestra o porvir.
Ela encarna tantas! Há uma força voraz que ela tem que aprender a dominar.
As muitas se manifestam perversamente escancarando na cara a dinâmica das metamorfoses. Elas são belas feras fazendo caretas simbólicas altamente magnéticas, concentram em si toda força básica do universo. A chuva anuncia as muitas quedas e o enxague. Ela soa, voa, escoa... Elas se dissolvem num todo e um rosto de mulher sorri ao fundo como se tudo isso a construísse plena.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011



Ele nunca soube o nome dela. Apenas que tinha uma cizatriz no queixo e que quando a viu chegar as pernas bambearam. Mas jamais vai esquecer da paisagem que ela pintava em seu peito. As lembranças eram força potente e avassaladora, se impunham sobre o agora.

E essa saudade ia ficar imprimida para sempre nos vãos de sua história.

(Sobre lembrar do que me emociona. "A moça da cicatriz no queixo", Eduardo Galeano.)