sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Paraty

Paraty



Ponto de partida
Passagem de ida
Começo da vida
Nenhuma ferida

Para ti essa cidade
Pára aqui nessa cidade
De muita idade
Abriga Trindade
E uma infinidade de beleza

Encontro das águas
Encontro-me na natureza
Terra eterna regada
Brota fruta do nada
E eu contemplo calada
Colada nas águas
A escorrer com o Rio
E me derramar no mar

Terra do Sono
Praia sem dono
E eu em abandono
Fazendo plano de viajar

Mas Paraty deve chamar Páraqui
Para ti esta terra, ri
Vi
Voltei
Fiquei
Não sei
Amei...

(2006)

domingo, 6 de julho de 2014

HORIZONTE FECUNDO

Remeto-me neste instante àquelas águas correntes dos morros de curvas verdes.
Meu ali.
Meu logo ali que alcanço agora e se transforma na coisa mais bela que posso oferecer de mim.
Meus passos seguem em frente dizendo agora como e por onde devo prosseguir.
O horizonte me acalma como um pai.
As cores deste fim de dia me preenchem.
Agradeço ao deus do mato e à deusa da água doce - eternos amigos

Deixo-me flutuar ao relento por uns instantes, aqueles que circundam o azul anil
Meu presente se torna cada vez mais enfático e as horas engordam
Neste exclusivo reconhecimento de existir

Inauguro o meu destino
Brindando com vinho tinto
Meu primeiro passo pra vida oriunda do horizonte fecundo

Meus olhos são só compreensão e alegria
meus olhos, neste instante, lêem o fluxo
Estou aqui
Correndo, correndo, escorregando nessas horas macias

A poesia me infecta e eu só posso sorrir e me abrir pra ela - irmã de todas as horas
Que saudade de estar aqui, reverberando meu agora
Por ora, é só.

domingo, 29 de setembro de 2013

O MOMENTO HOJE



Busco o instante doce
O momento hoje
O que em mim é inesperado.

Sinto a brisa gelada
Reparo o som da gargalhada
O amargo do café

Vivendo de fé e agora
Não vejo passar a hora
Agora que hora não há

É como se fora do tempo
O dia revelasse a aurora
Lá fora meu dentro
Esse lugar

Sou esse cão que ladra constante
Aquele galo distante
Minha memória do antes
Toda saudade que há

Sou os olhos atentos e noturnos do gato que na frente está
A esperança da gente de no céu chegar

Em cada estrada que passar
Estará lá tudo de mim
Tudo que devo encontrar
Me ensinando que a vida é assim
Esse eterno desvendar
Se eu quiser nunca terá fim
Se eu quiser pode tudo acabar

sábado, 14 de setembro de 2013

ZILDA




Era uma vez uma moça simples, que aos 9 anos perdeu sua referência de pai. A mais velha de 4 irmãos, os restantes do sexo oposto.

Era uma vez uma menina que foi à escola aos 11 anos e aos 15 se despediu de sua mãe.

Ela se apaixonaria um ano depois pela primeira vez. 

Eram beijos furtivos por detrás da roseira branca. 

Ele, um moreno cheiroso que beijava bem. 
Dez anos mais que ela. 
Um amor de verão e inverno, um amor de cartas de amor, um amor, único amor.

E ela não era a única do danado pé de valsa, fogo livre, passarinho de galho em galho que ora pousava em seu canteiro fazendo juras de amor.

Ela se casaria com ele. Até hoje, 70 anos depois, ela se casaria com ele. Fugiria com ele se não fosse errado, ou se não fosse tão correta. 

Cinco anos durou a maior aventura de sua vida, entre cartas e beijos escondidos de um homem passarinho.

E ela se permitiu sonhar e se permitiria a vida inteira esse vôo.

Quando ele foi embora ela disse que não seria mais de ninguém. Revoltada com os desejos do tempo que nada tinham a ver com seus desejos íntimos, trancou-se por três anos. Até um novo moreno cortejá-la. O sobrinho do passarinho, três anos menos.

E ela não quis mais saber de esperar. Foi um ano de namoro e um de noivado e lá estava ela atrelando seu destino a alguém, cuja união semearia duas vidas: um homem, meu pai, e uma mulher, minha tia. 

Foram 23 anos de uma vida tranquila  na recém inaugurada Brasília. Chegaram na década de 70. Pode-se dizer – Candangos – aqueles que acreditaram em Brasília quando Brasília era barro.


E se foram os anos e Brasília é asfalto e ela... Ela é uma menina de quase 80 anos que voa todos os dias detrás de suas roseiras imaginarias...




terça-feira, 30 de abril de 2013

Em alguma data do começo de mim hoje

Acabou
A torre desmoronou
Já estou entre os destroços
Pior não vai mais ficar
Serenizei os meus cacos
Acalmei minhas paixões

Não posso me perder porque perdi alguém
Nem posso desejar que outro venha preencher este vazio
Não há mais lugar

Estou fechada para conserto
Preciso arrumar essa bagunça

Pelo menos não há interferência do concreto quando respiro fundo e olho pro céu.

Ainda é noite
Mas meu coração já pensa em amanhecer
Já pensa em pulsar leve

Sem expectativas

Chega de falar, calei-me
Chega de pensar, entreguei-me
Chega de orgulho

Colhi os frutos malditos deste embrulho

Vinculei-me noturna,
                                 ignorante, curiosa,
                                 inconsequente

Conduzi-me para a queda
Já a previa,
Era necessária e certa

Agora me remonto
Mais discreta

E antes de dormir com essas cinzas, peço para Papai do Céu que você sonhe comigo!



quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pele Preta



Aquela moça preta e imponente repousa na frente das horas,

Como se quisesse me fazer esquecê-las
Como se o prazer lhe somasse a eternidade
Como se o universo fosse essa lua de muitas fases que rebate luz ciclicamente

Essa casa branca que de noite fica amarela me seduz sutilmente
Meu fiel escudeiro se chama Jazz
Minha poesia pulsa amiga
Bate a minha porta querendo me beijar com força

Eu como boa navegante permito-me uma deriva extensa por mim mesma.
Uma música cabalística soa como se me trouxesse de presente aquele passado doce
É como se esse passado encaminhasse meu passar
Meus passos transbordam
Me levam logo ali


Espírito livre.





domingo, 8 de abril de 2012

Valente


Uma vez nos disseram: olha, este caminho está muito ruim, o carro não agüenta, é ao lado da cordilheira, é mais bonito, lógico, mas ali, só 4X4; é mais seguro pegar esta estrada que você anda só cem quilômetros a mais, mas a estrada é muito boa, um tapete! Um pampa para contemplar e a segurança, né?

Olhamos-nos entusiasmados e cúmplices porque sabíamos que íamos pelo caminho mais bonito, não importavam os riscos. Vinho, vales, outono, seca, um sonho árido e gelado. Estávamos já perto do Chile. 150 quilometros percorridos em seis horas, um ciclista nos ultrapassou!




Mas o Valente seguiu viagem, quase sem combustível, com os olhos fracos de quem trepidou durante horas, seguimos rumo às montanhas desertas de Neuquén, rumo ao crepúsculo sinuoso e às viagens sem fim.